Os lácteos e os jargões assinalados... Parte1

Os lácteos e os jargões assinalados…
PARTE 1



Cozinhar sem leite…

Num contexto global o consumo de leite de vaca está fortemente enraizado na nossa cultura ocidental e a penetrar galopantemente nas sociedades ocidentalizadas há décadas. Não só o leite mas também os seus derivados. O debate, extremamente atual, sobre o seu consumo causa celeuma e é habitualmente fraturante. A visão naturopática, baseada em publicações científicas sólidas, sugere que a alimentação ponderada e natural não deve incluir este alimento.

Assim de repente lembro-me de vários motivos, comprovados por várias publicações científicas: - A quantidade enorme de gorduras saturadas presentes no leite de vaca (que chega a ser superior à da picanha); - As IGF1 bovinas, estruturalmente idênticas às IGF1 humanas, são absorvidas durante a digestão e conseguem interagir em certo grau com os nossos recetores celulares; - A quantidade anormalmente alta - para consumo humano - de proteínas presente no leite de vaca, donde destaco a beta-caseína-A1, que em conjunto com os péptidos resultantes da sua hidrólise parcial, têm a capacidade de se tornarem em “alérgenos” alimentares - num processo complexo, vai implicar o envolvimento não apenas de mediadores de processo inflamatório mas também de agentes do sistema imunológico, que costumam estar apenas presentes num contexto de alergia/infeção; - A lactose - a intolerância a este açúcar pode afetar até dois terços da nossa população desde intolerância leve ou até assintomática a moderada/grave.

Assim, e por uma ordem idêntica, assistimos a um aumento de incidência e prevalência de doenças do foro cardiovascular. Ficamos assoberbados com o crescimento quase exponencial de problemas oncológicos (atenção ao da próstata e da mama). Constatamos um crescimento assustador da taxa de obesidade e excesso de peso e seus problemas associados (donde destaco o síndrome metabólico e diabetes) nas últimas décadas. Verificamos o aumento das doenças crónicas, particularmente do foro otorrinolaringológico, como a asma, a rinite, a sinusite e/ou do foro dermatológico como a dermatite ou eczema - consideradas normais e explicadas quase exclusivamente pela indelével associação à poluição atmosférica e ao aumento de pólenes e outros alérgenos aéreos - isentando por absoluto as modificações observadas a nível da nossa dieta contemporânea (particularmente pelo uso desenfreado de leite e seus derivados).

Quando inquirido publicamente, em palestras ou seminários, detenho-me apenas no facto de que, baseado na minha experiência profissional, em contexto de consulta naturopática (e “consultas” de rua – que as pessoas adoram fazer-me…), quando confrontado com otites e amigdalites de repetição, rinites, sinusites e outras “ites”, quando peço para retirar o leite de vaca e derivados, tenho melhorias concretas em mais de 80% dos casos.

É muito fácil de entender: - Imaginem que temos uma manta para nos cobrir quando dormimos. Essa manta é muito curta… Se tapamos os pés, destapamos o peito. Se tapamos o peito, destapamos os pés. Da mesma forma, quando os nossos intestinos estão em inflamação/alergia, há um acesso imune. Os linfócitos, macrófagos, células dendríticas, etc, vão ser chamados para resolver o problema, desprotegendo outras áreas do corpo. Por norma, a que claudica com mais facilidade é a da área otorrinolaringológica.
Na minha opinião, se estivermos a beber leite ou a comer queijo a toda a hora, temos a eventual probabilidade de agredir cronicamente a mucosa intestinal. Desta forma, seguindo o raciocínio anterior, também as patologias do trato respiratório superior se podem tornar crónicas.

É particularmente importante nas crianças…

Gosto igualmente de invocar o seguinte panorama:
Os países asiáticos (por exemplo China e Japão), mercê da sua alimentação milenar, até meados do século XX, tinham tradicionalmente índices baixíssimos de patologias oncológicas e cardiovasculares (que por acaso são as mais letais…). A sua dieta tradicional incluía 0% de LEITE de vaca. Na mesma altura em que foi paulatinamente introduzido o conceito ocidentalóide de consumir leite de vaca e derivados (e também excesso de carne), a taxa de incidência de patologias oncológicas disparou para os níveis semelhantes ao dos EUA ou da Europa.

Dá que pensar, não?

Não obstante (e até correndo o risco de me contrariar), considero que o leite (de vaca) é um alimento completo, não devendo ser negligenciado em contexto de carências económicas. Ou seja, é preferível beber leite a passar fome. E o leite alimenta bem! Mas uma sociedade evoluída e ciente de alternativas mais salutares, ecológicas e sustentáveis, deve ponderar seriamente se o deve ou não incluir na sua dieta diária.

O mais preocupante hoje em dia é que as pessoas, mercê das autoestradas da comunicação, nunca tiveram tanto acesso a informação. Paradoxalmente nunca estiveram tão desinformadas…
Excesso de opiniões contraditórias…

Nas minhas aulas, a pretexto de descompressão, costumo dizer (para não complicar) que o jargão “alimentação saudável” está, também ele, gasto... Na minha modesta opinião, deveríamos substituí-lo por: - “alimentação mais saudável para cada indivíduo. Para cada SER”. Ela deve ser o mais intuitiva possível porque nós temos a capacidade inata de SENTIR o que devemos comer. O que nos faz bem…

Vou à FNAC, abro um livro qualquer a abordar alguns dos enganos e desenganos atuais da alimentação e ao acaso leio que tudo isto é um mito…

Food for your thoughts!

Step out of the box!


Ricardo Novais

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